Eu era uma menina pobre, branquinha e de cabelos pretos lisos e compridos, que estudava em uma escola particular muito boa no centro da cidade (na época em que ele ainda era bonito e organizado) porque minha mãe era faxineira e meu pai trabalhava provavelmente na parte de manutenção, então eu tinha bolsa integral. Os alunos mais pobres como eu, que tinham bolsa, usavam um uniforme diferente dos demais, ela uma blusa de lã e uma calça de moletom, ambos azuis-escuros com bolinhas verde escuras. Já os demais alunos podiam usar a roupa que quisessem.
Eu era criança, tinha cerca de uns 8 anos e estava brincando na porta da escola, e uma menina mais rica, loirinha e de olhos azuis, bem bonita, veio conversar comigo, bastante sorridente e simpática, e depois foi embora para a casa dela com o pai. Vou chamar ela de Rica já que não sei o nome verdadeiro.
Alguns anos depois, eu já tinha uns 13 ou 14 anos, e eu era morena de pele, baixinha, com os cabelos bastante encaracolados (sofri tipo uma transformação do Michael Jackson ao contrário), e eu estava fora do meu corpo, olhando pra mim como se eu fosse outra pessoa, aliás, conversando comigo como se eu fosse outra pessoa... Estávamos eu (e eu) batendo um papo, rindo, na porta da sala esperando a aula começar, e a Rica chegou caminhando por trás de mim e acabou pensando alto "nossa, que horror!" enquanto olhava para a roupa que eu estava usando. Não foi de maldade, ela tinha visto e sem querer deixou escapar, mas eu fiquei chateada e virei pra ela com uma cara sem graça, e ela ficou ainda mais sem graça e pediu desculpas, colocou a mão na boca, insistiu que eu a desculpasse, mas que não era culpa minha a roupa não ser a da moda, afinal eu era pobre, minha família também era muito humilde, então me pediu pra não ficar chateada com ela...
Apesar de eu ter ficado triste inicialmente, ela foi tão linda e sorridente e convincente no pedido de desculpas dela que eu fiquei boba, fiquei até meio apaixonadinha por ela. Começamos a conversar e eu disse pra ela que meu sonho era ter nascido cega (que viagem!), por 2 motivos principais; primeiro, que como eu era muito baixinha eu não precisaria ficar olhando pra cima pra falar com as demais pessoas, que geralmente eram mais altas e me davam dor no pescoço; e segundo, que se todos fossem cegos poderíamos andar com qualquer roupa que ninguém repararia na roupa do outro. Vai entender...
Então ficamos conversando e a Rica disse que poderia me dar um vestido de presente se eu quisesse, e ela me deu um vestido cinza bem bonitinho. Eu não parava de usar o vestido e fui ficando cada vez mais próxima dela, todos os dias eu e ela voltávamos pra casa juntas e íamos conversando e rindo no caminho, minhas lembranças dessa época eram de alegria, paz, tranquilidade. As amigas ricas dela, no entanto, não iam junto com a gente, e sempre me olhavam com nariz torto ou indiferença por eu ser mais pobre e diferente delas.
Em um desses dias, eu estava voltando pra casa com ela e vendendo sorvetes no caminho, pois minha mãe comprava alguns picolés em um fornecedor e deixava no freezer da nossa casa para eu vender depois da aula e complementar nossa renda. A Rica sempre me acompanhava durante as vendas e muitas vezes comprava alguns sorvetinhos pra me ajudar. Neste dia, eu estava usando o vestido cinza e depois que terminei as vendas a Rica foi me acompanhando pra casa, caminhando pelo centro da cidade, e em um determinado momento nós acabamos dando um selinho. Fiquei com
vergonha e virei o rosto para o outro lado, pois tive medo dela sair correndo e nunca mais querer falar comigo, mas para minha surpresa ela pegou na minha mão e sorriu pra mim, e então disse "você pode fazer isso mais vezes se quiser"... Então eu sorri de volta super feliz e apaixonada, e demos uma risada de cumplicidade.
A partir deste dia nós ficávamos todos os dias, sempre escondidas do pessoal da escola, nos divertíamos muito juntas, nos entendíamos muito bem. A Rica comprou uma máquina fotográfica que era tanto digital quanto tinha um filme, e nós vivíamos registrando nossos momentos juntas. No entanto, as amigas da Rica começaram a desconfiar dos nossos olhares e da nossa proximidade e passaram a falar para a Rica tomar cuidado com essas fotos, pois eu poderia mostrar essas fotos para a família da Rica, que era uma família muito importante e que não podia passar por uma vergonha dessas de ter uma filha gay, e de tanto falarem na cabeça da Rica, por mais que eu jurasse que a amava e que nunca faria isso, que não tinha interesse em nada material dela, etc, ela puxou a máquina da minha mão, e a máquina ficou comigo mas ela pegou o filme e jogou ele contra a parede, e ele quebrou em pedaços.
Nessa hora eu chorei muito, pois era o fim de tudo entre nós, ela não confiava em mim e tinha vergonha do que a gente tinha. Fui embora com o maior buraco no peito e um choro profundo e triste, mas guardei a máquina fotográfica com as nossas fotos, pois seria a minha única lembrança do amor verdadeiro que a gente tinha vivido. Depois disso, não nos vimos mais na escola durante alguns anos (como??? a gente estudava na mesma escola!!! rsrsrs).
Então, eu de repente tinha uns 20 anos e ela também, mas AINDA estávamos na mesma escola, e eu de repente não era mais uma menina, mas um menino. Eu tinha crescido e virado um menino moreno com cabelo encaracolado curtinho, e eu era bem alto e andava de skate. Eu estava descendo as escadas da escola com o skate na mão e acabei topando com ela, mas fazia tanto tempo que não nos víamos que eu não a reconheci na hora e ela também não (afinal, eu tinha virado um MENINO!!! rsrrssrs). Ela foi simpática, disse que sempre quis aprender a andar de skate, e eu comecei a ensinar a ela. Conversamos com outros amigos da escola e passamos uma tarde muito divertida, e repetimos isso algumas tardes depois da aula, até que nos apaixonamos um pelo outro e nos beijamos numa certa tarde.
No entanto, nesse dia, na hora de ir embora, eu fui vender os picolés da minha mãe e ela então percebeu que eu era eu, a ex-namorada dela de adolescente e que ela tinha dado aquela puta mancada há alguns anos. Ela me pediu desculpas, chorou, disse que se arrependeu muito da atitude que tinha tomado, que sentia muito a minha falta e que faria de tudo para eu dar a ela outra chance. Eu também chorei muito mas fiquei feliz dela ter repensado a atitude dela e resolvi dar a ela outra chance.
Ela me contou então que era virgem, e eu pensei que seria o homem mais respeitador possível com ela, mas que eu seria o homem da vida dela, e assim não teríamos problemas com a família dela, porque eu era um homem, apesar de ainda ser pobre. Depois disso, tive umas discussões com meu pai, pois ele disse que não entendia porque as meninas lésbicas ficavam tão bravas quando um cara dava em cima delas ou quando dizia que elas só eram lésbicas porque um cara de verdade não "fez direito" pra elas, mas eu pedi pra ele se colocar no lugar dessas meninas, imaginar ele com minha mãe e um cara dizendo pra minha mãe que ela tinha se contentado com meu pai porque não tinha saído com outro cara que tivesse "feito direito" com ela, e então ele entendeu melhor meu ponto de vista.
Então eu estava andando na rua e vi um trailer de um filme passando num telão próximo a um cinema... e descobri que na verdade nada disso tinha acontecido comigo, mas sim era um filme que eu tinha visto um pedaço e que se chamava "Opus alguma-coisa", e que eu tinha confundido a história do filme com a da minha vida. Então fiquei procurando loucamente esse filme para assistir na internet, mas antes que eu pudesse encontrar...
" I woke up it was seven, I waited till eleven
Just to figure out that no one would call..."
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